Conclusões de investigação — canábis medicinal
Investigação sobre efeitos, aplicação e riscos da canábis em medicina
Uso medicinal e cuidados
O uso medicinal da canábis evoluiu rapidamente nos últimos anos. Um número crescente de estudos clínicos e dados do mundo real mostra que os medicamentos à base de canabinoides podem ser uma opção de tratamento eficaz e bem tolerada para certos doentes — sobretudo quando os tratamentos estabelecidos são insuficientemente eficazes ou implicam efeitos secundários significativos.
Existe atualmente a evidência científica mais robusta para:
- Dor crónica, em particular dor neuropática
- Espasticidade na esclerose múltipla
- Náuseas e vómitos associados à quimioterapia
- Certas formas raras de epilepsia resistente ao tratamento (sobretudo com canabidiol)
Para além destas, estudos e a experiência clínica mostram, cada vez mais, efeitos positivos noutras condições, incluindo:
- Perturbações do sono
- Ansiedade e sintomas de stress
- Perda de apetite e perda de peso
- Sintomas acompanhantes crónicos em doenças prolongadas
- Sintomas angustiantes em situações de cuidados paliativos
Em muitos casos, o foco não está em curar a doença subjacente, mas sim em:
- Melhorar a qualidade de vida
- Melhor funcionamento no dia a dia
- Aliviar sintomas angustiantes e obter um controlo mais estável dos sintomas
A tolerabilidade das preparações de canábis medicinal é, em geral, considerada boa. Os efeitos secundários mais comuns são fadiga, tonturas ou boca seca, ocorrendo, normalmente, de forma dependente da dose. Com uma titulação supervisionada por um médico («start low, go slow»), os efeitos indesejados podem, muitas vezes, ser reduzidos.
Como em qualquer terapêutica farmacológica, é necessária uma avaliação cuidadosa do balanço benefício-risco. Particular prudência é exigida em doentes com perturbações mentais graves preexistentes ou doença cardiovascular significativa. Produtos padronizados, doses ajustadas e supervisão médica são fundamentais para a segurança e a eficácia.
Situação legal na Suíça
Desde agosto de 2022, os médicos na Suíça podem prescrever canábis medicinal diretamente. Já não é necessária uma autorização excecional do Departamento Federal de Saúde Pública (FOPH).
As principais condições:
- Prescrição com base em indicação médica individual
- Utilização de medicamentos de canábis padronizados e com controlo de qualidade
- Comunicação de determinados tratamentos no âmbito da investigação nacional de acompanhamento
- O reembolso pelo seguro de saúde obrigatório está, em regra, sujeito a aprovação individual dos custos
A alteração legal simplificou significativamente o acesso dos doentes e permite, ao mesmo tempo, uma melhor avaliação científica das experiências de tratamento na prática clínica.
Acesso ao tratamento
Na prática, o acesso à canábis medicinal ocorre através dos seguintes passos:
- Avaliação médica dos sintomas e das terapêuticas anteriores
- Avaliação da utilidade de um tratamento à base de canabinoides
- Prescrição médica de uma preparação adequada
- Esclarecimento individual sobre um possível reembolso pelo seguro de saúde
- Dispensa em farmácias
A canábis medicinal é, em regra, utilizada como terapêutica complementar, mas, para muitos doentes, pode trazer uma melhoria significativa no controlo dos sintomas e na qualidade de vida.
Conclusões de estudos atuais
A evidência científica sobre o uso medicinal da canábis cresce continuamente. Os estudos atuais confirmam um quadro matizado: em algumas áreas de utilização existe evidência sólida, enquanto em muitas outras a base científica continua a crescer.
Áreas de utilização com forte evidência
Epilepsia
O canabidiol (CBD) continua a ser um dos canabinoides mais estudados. As metanálises mostram uma redução da frequência das crises de cerca de 30–50% em formas graves de epilepsia resistente ao tratamento.
Dor crónica
A evidência é mais robusta para a dor neuropática. Cerca de dois terços dos estudos aleatorizados relatam efeitos positivos. A redução média da dor é moderada, mas, para os doentes em causa, pode significar um alívio notório no dia a dia.
Esclerose múltipla
A espasticidade continua a ser uma das indicações com mais evidência. Novos dados de registos mostram também melhorias na qualidade de vida e, em alguns casos, na função da bexiga, em períodos de observação até dois anos.
Náuseas e vómitos induzidos por quimioterapia
Os canabinoides têm efeito antiemético comprovado e são utilizados, em particular, quando as terapêuticas padrão são insuficientemente eficazes.
Áreas de utilização com evidência moderada
Perturbações da ansiedade e PSPT
Os estudos mostram efeitos ansiolíticos do CBD. Dados observacionais e de registos relatam melhorias dos sintomas, do sono e da qualidade de vida, embora sejam necessários mais estudos controlados.
Sintomas depressivos
Os resultados continuam mistos. Os dados observacionais sugerem possíveis melhorias em períodos mais longos, mas não permitem ainda conclusões causais claras.
Perturbações do sono
Muitos doentes relatam melhorias subjetivas. Estudos iniciais sobre combinações de THC e CBD mostram efeitos positivos na qualidade do sono e no tempo para adormecer, embora os resultados sejam ainda inconsistentes.
Doença inflamatória intestinal
Os estudos mostram melhorias nos sintomas e na qualidade de vida, embora um efeito anti-inflamatório direto ainda não tenha sido consistentemente demonstrado.
Cuidados oncológicos
Os canabinoides são cada vez mais utilizados como apoio para aliviar dor, ansiedade, problemas de sono e perda de apetite. Estudos pré-clínicos mostram também potenciais efeitos antitumorais, que estão atualmente a ser mais investigados em ensaios clínicos.
Segurança — conclusões atuais
Novos estudos confirmam que o perfil de risco depende fortemente do teor de princípios ativos, da dose e da seleção do doente:
- Os produtos com elevada potência de THC estão associados a um risco acrescido de sintomas psicóticos
- Existem indícios de possíveis riscos cardiovasculares, embora a evidência seja inconsistente
- O uso em doses elevadas ou a longo prazo pode aumentar o risco de dependência de canábis
- Estudos observacionais sugerem que o uso medicinal de canábis em doentes com dor crónica pode estar associado a menor consumo de opioides
Avaliação global
O uso medicinal da canábis afirma-se cada vez mais como opção de tratamento baseada em evidência para grupos selecionados de doentes.
Embora, para algumas indicações, exista já uma base científica sólida, a evidência noutras áreas continua a crescer. A investigação futura irá centrar-se, sobretudo, nos efeitos a longo prazo, em abordagens terapêuticas personalizadas e na combinação e dose ótimas dos princípios ativos.
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